
Gêmeos de 18 anos contam bastidores de aprovação em universidades de elite dos EUA
Aos 18 anos, dois irmãos gêmeos que cresceram em uma cidade de 20 mil habitantes, no interior de São Paulo, foram aprovados em universidades americanas mundialmente reconhecidas: MIT (Massachusetts Institute of Technology) e Universidade Cornell.
É provável que você esteja atribuindo essa conquista a uma suposta genialidade ou superdotação da dupla. Mas Mateus e Camila Shida riem quando alguém cogita essa hipótese.
“Já estudei matemática com um pessoal que, caramba, era gênio mesmo. A gente sabe que não é nosso caso. O negócio foi sentar na cadeira e estudar, não teve jeito”, brinca o jovem.
Conhecendo a história dos dois, o g1 arrisca listar quais os diferenciais que contribuíram para que eles fossem aprovados em universidades da Ivy League (grupo de oito instituições de elite dos Estados Unidos, conhecidas pela excelência acadêmica):
Um livro por dia, desde o berço
Celular? Só depois dos 15 anos
Alfabetização em português e em inglês aos 2-3 anos
Soroban e olimpíadas sempre presentes (com rivalidade saudável entre os irmãos)
Cultura japonesa e “o dever de retribuir”
Esportes e mais esportes
Leia mais abaixo.
Irmãos gêmeos foram aprovados em universidades de ponta nos EUA
Arquivo pessoal
📚Um livro por dia, desde o berço
A mãe de Camila e Mateus é dentista, e o pai, agrônomo. Mesmo sem nenhuma relação profissional com educação, o casal transformou a casa da família em um ambiente estimulante para o desenvolvimento cognitivo das crianças.
Ao redor dos berços, deixavam livros infantis espalhados — os bebês engatinhavam até as obras escolhidas e escutavam as histórias (todos os dias, sem falta).
“Acho que nossos pais sempre foram meio visionários. A gente não entendia no começo, mas hoje sou totalmente apaixonada por ler. Desde muito cedo, existiu essa cultura na nossa casa”, conta Camila.
“Eu li mais de 50 livros em um ano, na pandemia. Gosto de tudo: fantasia, ficção científica, romance…”, complementa Mateus.
📲Celular? Só depois dos 15 anos
Segundo os jovens, um fator decisivo para que se interessassem tanto por literatura foi a falta de contato com telas.
“Eu só ganhei celular quando fiz 15 anos. Desde sempre, em vez de nos dar um tablet ou algo assim, nossa mãe nos oferecia um livro. Ela sempre foi meio contra esse mundo virtual”, afirma Mateus.
Os jogos de tabuleiro e de cartas também desempenharam um papel importante no desenvolvimento das crianças, conta Lucila, mãe da dupla.
“Até hoje, eles gostam disso. Jogos assim, que não são eletrônicos, exigem que a pessoa se controle, tenha uma estratégia, e não desista facilmente para ‘passar para o próximo’”, diz ela.
📝Alfabetização em português e em inglês aos 2-3 anos
Aos 2 anos, Camila foi diagnosticada com leucemia e passou oito meses internada em São Paulo, acompanhada pela mãe. Nos leitos vizinhos, os demais pacientes da oncologia infantil costumavam se distrair com telas. Como fugir desse recurso?
“Minha mãe me disse: vamos evoluir nesse tempo e desenhar, fazer origami, pintar as unhas… e aprender a ler”, lembra Camila.
A mãe dos gêmeos foi orientada por uma amiga e médica para iniciar a alfabetização tanto de Camila quanto de Mateus, que ficava com o pai em casa. Aos dois anos, os irmãos já haviam aprendido a ler em português. Aos 3, em inglês.
“Eles nunca fizeram inglês em escola; sempre preferi professores particulares. Eram três diferentes, que não se conheciam, de cidades distintas: dois on-line e um presencial. Queríamos pronúncias, metodologias e estímulos distintos”, diz Lucila.
Camila e Mateus, por isso, sentem-se totalmente seguros e tranquilos para estudar nos Estados Unidos a partir do segundo semestre.
🧮Soroban e olimpíadas (com rivalidade saudável entre os dois)
Camila e Mateus participaram de muitas olimpíadas de conhecimento
Arquivo pessoal
Desde cedo, os dois mergulharam no universo do Soroban (o ábaco japonês), uma técnica que exige concentração extrema e agilidade mental para fazer cálculos.
A dedicação era tamanha que os irmãos chegaram a cruzar o oceano para competir em Taiwan e no Japão. Mateus, o mais entusiasta da prática, chegava a treinar cinco horas por dia após as aulas, mesmo aos finais de semana.
“A gente sempre aproveitou muito a cultura japonesa de Bastos, nossa cidade. Essa dedicação total ao que se está fazendo foi o que nos levou para as competições internacionais”, explica Mateus.
As olimpíadas científicas marcaram a adolescência da dupla. “De tudo o que começava com ‘O’ (OBA – Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica; OBR – Olimpíada Brasileira de Robótica), a gente participava”, brinca Camila.
Como a escola local tinha limitações de material para esses níveis avançados, a mãe entrava em cena: ela estudava os conteúdos por conta própria para conseguir ensinar os filhos em casa.
🤼♀️Competição entre gêmeos
Irmãos competem de forma saudável, contam
Arquivo pessoal
A parceria sempre existiu, mas com pitadas de uma rivalidade saudável, conta a dupla.
“Não é que eu queira ser melhor que ela, mas se a Camila resolve fazer algo, eu sinto que aquilo se torna o novo padrão de exigência. Eu rendo mais quando ela está no mesmo projeto”, explica Mateus, rindo.
Nos anos finais do ensino fundamental, os gêmeos puderam contar com uma tutoria à distância de professores do Colégio Etapa. No ensino médio, Camila e Mateus mudaram-se para São Paulo e passaram a estudar presencialmente na instituição, com bolsas de 75% e 100%, respectivamente.
“A gente via aqueles times olímpicos de escolas grandes e queria fazer parte daquilo, de estar perto de pessoas que sonhavam alto e não se contentavam com pouco”, conta Camila.
Eles foram aprovados nas universidades americanas assim que terminaram a educação básica.
🙏A cultura japonesa e o ‘dever de retribuir’
Bastos, cidade no interior paulista conhecida como a “Capital do Ovo”, tem forte influência da imigração japonesa. Essa herança cultural moldou não apenas a rotina de estudos, mas a visão de mundo dos jovens, que cresceram sob o princípio de gratidão e de serviço à comunidade.
“Temos muito forte essa coisa de querer retribuir para a sociedade. Fomos formados por essa rede de apoio no interior e queremos, no futuro, aplicar o que aprendermos fora para resolver problemas aqui no Brasil”, afirma Camila.
Na adolescência, os dois desenvolveram um projeto voluntário para dar aulas de matemática em escolas públicas da cidade.
🤸♀️Nada de ficar só sentado
Apesar da rotina intensa de estudos, o esporte sempre foi atividade obrigatória para os irmãos: dança, baseball, beach tennis…
A tensão do resultado, inclusive, foi vivida em quadra. No dia em que a resposta de Cornell foi liberada, Mateus estava jogando no clube da cidade. “Tentei abrir o site, mas a internet estava ruim, errei a senha, o site travou… foi um caos”, recorda Mateus. O alívio só veio em casa, com o computador funcionando e a tela sendo tomada por confetes digitais (sim, havia esse recurso visual).
Já Camila recebeu a notícia do MIT em março, no chamado “Pi Day” (14/03, em referência ao número pi, cerca de 3,14).
“Eu estava sozinha em São Paulo, sem expectativa. Quando vi os castorezinhos, que são o mascote do MIT, caindo na tela, entrei em choque total. Minha mãe gritava ao telefone e eu não conseguia nem responder”, diz.
Estudar em universidades no exterior, como Cornell ou MIT, pode custar entre US$ 90 mil e US$ 100 mil por ano. Ainda assim, a mãe dos gêmeos ressalta que essas instituições oferecem caminhos para viabilizar o acesso. No MIT, por exemplo, o aluno é admitido primeiro e, depois, a universidade avalia sua condição econômica para oferecer apoio conforme a necessidade. Em Cornell, o processo também leva em conta o perfil acadêmico e a realidade do candidato.
🧐E os primos?
É uma árvore genealógica com um currículo invejável, digamos assim:
duas primas de Camila e Mateus estudam em universidades americanas (Michigan e Notre Dame);
e a irmã mais velha deles faz medicina na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
“Nossa família sempre acreditou muito nisso. Nossas mães cresceram se apoiando e colocando todo mundo nos mesmos cursos e incentivos”, explica Camila.
Com tantos aprovados em instituições de elite, sobra para o primo mais novo, de 17 anos, lidar com a “pressão”. Ele está no terceiro ano do ensino médio e quer medicina em universidades de ponta, como USP ou Unicamp.
“A gente é muito próximo e fica zoando, coitado”, diz Mateus. “Mas a verdade é que nossa família deu sorte. Estar em um ambiente onde todo mundo quer algo a mais faz com que o sonho de estudar fora deixe de ser algo impossível e vire uma possibilidade real para todos.”
Celular só aos 15, alfabetização no hospital: como gêmeos brasileiros de 18 anos chegaram a universidades de elite nos EUA
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