“Redução da jornada não é receita para sucesso econômico”, diz economista finlandês

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A redução da jornada de trabalho avança no Brasil. O Congresso discute mudanças que podem alterar a tradicional escala 6×1 – seis dias de trabalho para um de descanso -, modelo ainda dominante no comércio e em parte do setor de serviços. As propostas em análise reduzem o teto semanal para 36 horas e ampliam os dias de folga, numa mudança que teria impacto estrutural sobre o mercado de trabalho.

Essa não seria a primeira vez que o país revê a redução da jornada de trabalho. A Constituição de 1988 já havia promovido uma redução significativa ao cortar a jornada máxima de 48 para 44 horas semanais, limite que permanece em vigor até hoje. Agora, mais de três décadas depois, o assunto retorna com força. Enquanto trabalhadores veem na medida uma promessa de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o setor produtivo manifesta preocupação com aumento de custos. No mercado financeiro, o receio é duplo: além do impacto sobre empresas, discute-se a possibilidade de o governo compensar a redução por meio de desoneração da folha, o que poderia pressionar ainda mais as contas públicas.

O Brasil não é o único país emergente que busca modernizar essa legislação. O México aprovou recentemente uma reforma para reduzir gradualmente sua jornada legal de 48 para 40 horas semanais, com início de implementação previsto para o próximo ano. O problema é que ambos os países combinam forte presença do setor informal com produtividade média inferior à das economias avançadas, onde essa escala parece funcionar sem grandes problemas. Em países nórdicos, por exemplo, jornadas inferiores a 40 horas não são novidade. Finlândia, Suécia e Dinamarca operam há décadas com semanas próximas de 37 ou 37,5 horas, fruto de um longo processo de negociação coletiva e amadurecimento institucional.

Enquanto economias emergentes discutem agora como reduzir horas sem comprometer crescimento e emprego, os países nórdicos já acumulam experiência, mas em um ambiente produtivo e institucional bastante distinto. Para o economista finlandês Petri Böckerman, professor da Universidade de Jyväskylä e pesquisador do IZA, um dos principais centros internacionais de pesquisa sobre emprego, a discussão deve ser menos ideológica e mais institucional. Segundo ele, a trajetória dos países ricos que adotaram jornadas menores não revela “milagres econômicos”, mas tampouco confirma previsões alarmistas, desde que a mudança esteja inserida em um contexto de alta produtividade, coordenação nas negociações salariais e capacidade de adaptação das empresas.

Nos países nórdicos, explica Böckerman, a redução não ocorreu por imposição abrupta do Estado, mas por meio de negociações graduais entre sindicatos e empregadores, dentro de um sistema altamente coordenado. Em vários casos, a produtividade por hora foi mantida ou até aumentada, especialmente em setores baseados em conhecimento, onde foi possível reorganizar processos e eliminar ineficiências. Em atividades que exigem presença contínua, porém, os ganhos foram mais limitados e, em alguns casos, os custos subiram. Por outro lado, os impactos sobre o bem-estar são mais claros: há melhora no equilíbrio entre vida profissional e pessoal e redução de estresse e burnout.

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O ponto central, segundo Böckerman, é que jornadas mais curtas não explicam, isoladamente, o sucesso econômico dos países nórdicos. Eles permanecem competitivos porque combinam alta qualificação da força de trabalho, forte investimento em inovação e instituições trabalhistas baseadas em confiança e coordenação. Para economias emergentes, como o Brasil, a lição é de cautela. Em ambientes com alta informalidade e menor produtividade média, uma redução abrupta pode elevar custos sem contrapartida em eficiência, e até incentivar a migração para a informalidade, alerta o economista.

Como a jornada foi reduzida nos países nórdicos? Nos países nórdicos, a semana de 40 horas está prevista em lei, mas a redução para cerca de 37 ou 37,5 horas não ocorreu por meio de uma decisão legislativa abrupta. Foi resultado de um processo gradual de negociação coletiva. Ao longo dos anos, sindicatos e associações patronais firmaram acordos setoriais que encurtaram a jornada, e as empresas adaptaram a organização do trabalho para viabilizar a mudança. Não se tratou, portanto, de uma ruptura imposta pelo Estado, mas de uma transição negociada e previsível. A redução foi incorporada ao funcionamento do mercado de trabalho de forma coordenada, com tempo para ajustes e adaptação produtiva.

O que os países nórdicos fizeram que permitiu reduzir a jornada sem desorganizar a economia? A redução da jornada só foi viável porque ocorreu dentro de um modelo institucional bastante específico. Os países nórdicos têm negociação coletiva coordenada, alto grau de formalização do emprego e relações trabalhistas baseadas em confiança entre sindicatos e empregadores. Além disso, contam com um sistema de proteção social robusto e uma força de trabalho altamente qualificada. Esse ambiente permite que decisões sobre jornada sejam negociadas levando em conta produtividade, custos e competitividade internacional. Como as partes internalizam os impactos econômicos durante a própria negociação, o risco de desequilíbrios abruptos, como perda de competitividade ou pressões inflacionárias, tende a ser menor.

O que aconteceu com a produtividade quando as horas foram reduzidas? Em vários casos na Finlândia, Suécia e Islândia, a produtividade por hora foi mantida ou até aumentou após a redução da jornada. Isso ocorreu especialmente em ocupações baseadas em conhecimento ou atividades administrativas, onde foi possível reorganizar processos, eliminar ineficiências e melhorar o foco do trabalho. No entanto, os resultados variam bastante conforme o setor. Em atividades que exigem presença contínua, como saúde ou serviços presenciais, os ganhos de produtividade são mais difíceis de alcançar sem contratação adicional.

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Os custos trabalhistas aumentaram? Do ponto de vista econômico, se o salário mensal é mantido e as horas diminuem, o custo por hora sobe automaticamente. Isso é uma consequência mecânica. Em alguns casos, as empresas conseguiram compensar parte desse aumento por meio de maior eficiência, redução do absenteísmo ou menor rotatividade. Ambientes de trabalho mais equilibrados tendem a reduzir afastamentos e melhorar retenção, o que também gera economia indireta. Ainda assim, não existe “almoço grátis”. Em setores que exigem cobertura contínua de pessoal, como hospitais ou serviços essenciais, o custo total frequentemente aumentou porque foi necessário contratar mais pessoas. A evidência empírica não sustenta a ideia de que a redução de jornada reduz custos de forma automática.

A redução de jornada gerou mais empregos? A hipótese de que dividir horas automaticamente cria novos postos de trabalho, conhecida como “work-sharing”, tem pouco respaldo robusto na literatura econômica. Os efeitos sobre o emprego tendem a ser modestos e altamente dependentes do contexto. Em setores onde a produção exige um número fixo de trabalhadores por turno, pode haver necessidade de contratação adicional. Porém, em nível macroeconômico, não há evidência clara de grandes ganhos de emprego decorrentes apenas da redução de horas. Estudos sobre o mercado de trabalho finlandês indicam que o nível de emprego depende muito mais do crescimento econômico e da demanda agregada do que da simples redistribuição de horas trabalhadas.

O que aconteceu com os salários? Nos países nórdicos, a redução da jornada semanal não veio acompanhada de corte nos salários mensais. Na prática, isso significou um aumento automático do salário por hora trabalhada: o funcionário passou a trabalhar menos horas, mas recebendo o mesmo no fim do mês. Para as empresas, portanto, o custo por hora subiu. Em tese, esse movimento poderia pressionar preços ou reduzir a competitividade internacional, especialmente nos setores exportadores.

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 Como foi evitada essa escalada de preços? O que evitou esse desdobramento foi o modelo de negociação salarial coordenada típico desses países. Sindicatos e empregadores negociam de forma centralizada e calibram os reajustes levando em conta a produtividade, o desempenho das exportações e o cenário externo. Isso cria uma espécie de “âncora” para os salários, reduzindo o risco de aumentos descolados da capacidade real da economia. Esse arranjo institucional foi decisivo para que o aumento do custo por hora não se transformasse em perda significativa de competitividade nem em uma espiral inflacionária.

A redução de horas afetou o crescimento ou a competitividade dos países? É muito difícil isolar o efeito direto da redução da jornada sobre o crescimento econômico. Os países nórdicos permanecem altamente competitivos no cenário internacional, mas esse desempenho resulta de um conjunto de fatores estruturais: elevada qualificação da força de trabalho, forte investimento em inovação, instituições estáveis e relações trabalhistas baseadas em confiança. A jornada mais curta é apenas um componente desse arranjo mais amplo – não uma receita automática para o sucesso econômico. Não há evidência de que, por si só, trabalhar menos horas tenha sido o principal motor da competitividade nórdica.

Pequenas e médias empresas foram afetadas de forma diferente? Sim. Empresas maiores geralmente têm mais capacidade de reorganizar processos, investir em tecnologia e absorver custos fixos. Já pequenas e médias empresas tendem a enfrentar maior dificuldade de adaptação. Por isso, o impacto da redução de jornada varia bastante conforme o porte da empresa e o setor de atuação.

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Houve impacto sobre o bem-estar dos trabalhadores? Nesse ponto, a evidência é mais consistente. Experiências nórdicas mostram melhora significativa no equilíbrio entre vida profissional e pessoal, além de redução de estresse e sintomas de burnout. Pesquisas feitas sobre condições de trabalho, saúde mental e bem-estar indicam que ambientes laborais mais equilibrados estão associados a melhores indicadores de saúde e satisfação. Embora os efeitos de longo prazo ainda estejam sendo estudados, os resultados iniciais apontam ganhos relevantes em qualidade de vida.

Um modelo semelhante poderia funcionar no Brasil? É possível, mas as condições institucionais são determinantes. Em economias com alta informalidade, menor capacidade de fiscalização e produtividade média mais baixa, uma redução abrupta por lei pode elevar custos sem ganhos compensatórios de eficiência. Isso pode, inclusive, estimular informalidade. Uma abordagem gradual, negociada por setor e acompanhada de políticas de aumento de produtividade e qualificação da força de trabalho tende a ser economicamente mais segura do que uma mudança ampla e imediata.

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